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Quinta-feira, Agosto 12, 2004

Espaços Públicos e Privados da Responsabilidade Social


Qual é o espaço público que a ação da responsabilidade social praticada pela iniciativa privada pode ocupar? ou qual é o que o estado pode lhe ceder? Difícil uma resposta plausível, que seja imune aos questionamentos éticos que se apresentam entre os direitos e deveres, de estados e empresas. A empresa pode avançar na educação? O estado pode ceder-lhe a gestão? E na saúde? E no governo e suas políticas e doutrinas?

Em "Valores ou interesses - Reflexão sobre a Responsabilidade Social dos Empresários" os autores Zairo Cheibub e Richard Locke questionam: "Se não pode ser claramente demonstrado que é do interesse das empresas assumirem a Responsabilidade Social, o que dizer do argumento que elas estão moral e politicamente obrigadas a isso, pois se beneficiariam de uma permissão para explorar recursos que são, em última instância, sociais?" O que se pergunta então é se há fundamento ético, moral ou político na reivindicação de empresas e empresários assumirem responsabilidades que vão além de seus interesses econômicos.

Nessa dinâmica, uma relação de troca, empresas e governos são questionados de forma diferente. Os governos são avaliados pela sociedade, que por isso lhes dá ou tira o poder. Nas empresas há uma diferença, um valor inexistente nos estados. O de sua propriedade, e o valor de suas ações ou de sua posse. Uma grande empresa, uma multinacional que não seja predadora do meio ambiente, que seja boa para seus funcionários, com gestão eficiente, que produza bem, que participe das comunidades, que seja responsável onde está instalada, e que atue eticamente vale mais no mercado, seus acionistas tem mais facilidade de atrair investimentos, e ganham mais dinheiro ao vende-las, e as compram com mais segurança. Não é assim com os estados.

Portanto, além de saber se as empresas têm obrigações com a sociedade, questiona-se se elas tem o direito de agir no espaço público. Aceitando se que sociedades mais à esquerda reprimem as liberdades e beneficiam a assistência social, teríamos a responsabilidade social mais aceita nelas, com seus governos mais receptivos, o Brasil é um exemplo, até com as PPP ¿ Parcerias Público Privadas, versões amplificadas, digamos. Mas é nas sociedades mais liberais, onde impera a idéia do estado mínimo, que acontece o maior crescimento da ação de responsabilidade social das empresas. Porque nesses países se privilegiam as liberdades, especialmente as de iniciativa, em detrimento da assistência pública. Entretanto, mais liberdade, mais próxima a empresa do limite da ação privada no espaço público.

O assunto é menos polêmico nos países da América do Norte, onde é antiga a tradição na filantropia social, e este é o termo usado por lá, enquanto aqui ele fica mais no meio acadêmico. Algumas empresas relutam em adota-lo ou modificam para Responsabilidade Social, provavelmente em função da tradição da Igreja Católica na intermediação da caridade, termo evitado. Além da questão do espaço público ocupado pelas empresas em suas ações de Responsabilidade Social, há a definição do que seria essa atitude, ou o que a diferencia da ação privada e comercial da própria empresa.

Em "Privado porém público - O Terceiro Setor na AL" Rubens César Fernandes define o Terceiro Setor como não governamental e não lucrativo, sendo organizado, independente e distinguido pelo voluntariado de seus membros. O que implica uma "ampliação" da idéia da esfera pública, ao entender que a vida pública não é feita apenas de atos do governo, mas também da atividade cidadã. Fernandes não considera, dessa forma, o terceiro setor numa função substituta do estado. Fica bom, mas nem tanto para prevenir conflitos éticos e morais.

Faltam ainda estudos gerais do tema no Brasil, e os programas de pós-graduação são o foro legítimo desse interesse que se manifesta em teses de mestrado e doutorado, especialmente na USP e FGV de São Paulo e do Rio, comenta a autora Helena Bomeny, no texto produzido da pesquisa "Empresários e Educação no Brasil", do Programa de Promoção da Reforma da Educação na AL e Caribe - PREAL , sediado na FGV do Rio de Janeiro.



postado por: Thomaz Magalhães® 7:44 PM



Quinta-feira, Outubro 23, 2003


edward hopper

Crônica é melhor que notícia?

Mal começo a ler e já vem a implicância. É a mesmice do notíciário que me enche, e se agrava ao ler mais que dois ou três jornais e revistas. Tudo igual. Já faz tempo me refugio então na leitura dos cronistas e articulistas, capazes de promoverem a reflexão, que busco nesse meu cacoete da leitura. Dei então para achar que a leitura dos cronistas substitui a das notícias para me manter informado.

Vamos olhar alguns autores desse domingo e ver se não tenho razão. O Mário Prata em seu estilo divertido está chateado com a eleição do próximo imortal para a Academia Brasileira de Letras, por estarem pau a pau as chances do jornalista, escritor e biógrafo Fernando Morais, com o político Marco Maciel, aquele comprido. Escritor?, pergunta. E me faz copiar sua idéia de usar vírgula depois da interrogação. Mas Mario Prata dá um justo desconto ao magrão, dizendo também que o homem é mesmo chegado às letras: FHC-PDS-PFL.

Sobre a ida do chineses ao espaço, o Agamenon (O Gobo) comenta a intenção do governo brasileiro neste campo, informando que o zé dirceu está organizando pessoalmente a lista dos astronautas do PT. Encabeçando a lista, a ministra Benedita será a primeira astronauta brasileira a ser mandada para o espaço. Lembra ainda que o Brasil se antecipou aos próprios chineses, mandando para o espaço aquele chinês preso no aeroporto com 30 mil dólares.

Dá ainda uma olhada no mercado de revistas de banalidades voltadas para o público fofoqueiro: Encaras (dedicada às mocréias da alta sociedade), Cheques de famosos (especializada em estelionatários do jet set ) e as interrogativas Quem? e Isto É Gente? que inundam os salões de cabeleireiros e salas de espera de dentistas do país.

O Elio Gaspari se ocupa de espinafrar a pretensão do governo petista de turbinar os poderes da Abin, para quem não sabe a sucessora do bucólico SNI, que tanto lhes deu porrada. Para isso, os doutores do Planalto iniciaram uma operação de esclarecimento público. Querem uma Superabin, capaz de solicitar grampos telefônicos, gravar o que se diz na casa dos outros e interceptar correspondência (leia-se e-mail). Hoje a Abin só grampeia alguém se a Polícia Federal patrocinar o pedido à Justiça. Elio Gaspari dedica ainda umas linhas ao gurú de Lula, o frei Beto, defendendo o socialismo cubano, fFidel Castro, o MST e seus militantes presos. Um genuino assessor tchap-tchura, modelo anos sessenta.

Faz também um interessante comentário sobre o livro Racismo à Brasileira, do professor americano Edward Telles: é lorota a história segundo a qual no Brasil há uma base de desigualdade social, mas não há racismo. É o racismo quem desenha a base da desigualdade. Nossa! O livro tem a marca das grandes obras, diz Gaspari: merece ser lido sobretudo por quem se dispõe a contrariá-lo.

Vamos então ao Roberto da Matta, no Estadão, dizendo que numa conversa de botequim com o pessoal do andar de baixo se revelam coisas surpreendentes, como o governo Lula e o PT serem coisas inexistentes ou no máximo um referência eleitoral. Cita o que escutou de um desses mortais, lhe dizendo que "o Lula recebeu um prêmio da ONU, mas deu o dinheiro para os pobre de lá. Devia ter dado o dinheiro aqui, para os nossos pobres".

Escreve que na desconfiada relação Estado-Sociedade o famoso balcão que tem de um lado o funcionário público e de outro o cidadão, há o que Richard Moneyrand, famoso brasilianista hoje da Universidade de New Passo, chamou de "lei social da espera" - pois no Brasil a importância social faculta descumprir horários e compromissos de modo que, quanto mais poderoso, mais atrasado - há o exercício do poder à brasileira. Mais ou menos o que experimentou o deputado Gabeira, na semana passada, na ante-sala do todo-poderoso ministro josé dirceu.

Temos ainda o Arnaldo Jabor, para desespero da patrulha ideológica e da polícia politicamente correta, falando de seu último contato com o socialismo, quando visitou Cuba e falou com fidel castro. Jovens de hoje não entendem como é difícil para minha geração falar mal do Fidel, condenar os fuzilamentos, as burrices que ele anda fazendo, porque ele "era tudo", diz ele. "Como amávamos os operários!... Na alta madrugada, fechando o jornal no chumbo, eu os olhava levando as páginas para prensar na calandra; seus braços fortes pareciam saídos de uma gravura soviética. Alguns, hoje vejo, ficavam desconfiados de tanto amor. "Serão bichas?", pensavam eles. Não, éramos apenas comunistas."

E termina contando o final de seu encontro com o ditador: enquanto o olhar espantado de Fidel cortou o meu olhar por um segundo. "Será que é uma bicha brasileira, infiltrada?" - tenho certeza que ele pensou. Não, não era uma bicha; apenas um ex-comunista, comandante.

Tem mais, muito mais no que os cronistas escrevem. Vamos ao mestre Veríssimo, no O Globo, em A glória de Deus: é esconder, e a glória dos reis é descobrir, disse, mais ou menos, Salomão (Provérbios 25:2). Muitos séculos depois, o inglês Sir Francis Bacon, um dos primeiros reis da ciência, deu um conselho curioso aos que estudavam a Natureza: eles deveriam desconfiar de tudo que suas mentes adotassem com muita satisfação.

Quando se começava a falar em partículas subatômicas e seu estranho procedimento, o físico dinamarquês Niels Bohr disse que elas só poderiam ser descritas usando-se a linguagem como na poesia. Um sombrio reconhecimento de que a linguagem racional não teria como acompanhar a especulação científica e estava condenada à analogia e à aproximação inexata. Assim os físicos falam em teorias das cordas, em um universo em forma de donut, ou agora de bola de futebol, e isso é apenas o som da mente humana se chocando contra os limites da linguagem.

Em outro escrito no Estadão do mesmo domingo Veríssimo nos fala de remorso, trazendo a história de dois famosos. Mikhail Kalashnikov, que criou o mais usado fuzil automático do mundo, o AK-14. Mikhail está com 83 anos, vive uma aposentadoria tranqüila nos Urais, cercado pelas filhas, e, fora a surdez, resultado dos anos testando armas, não ficou com qualquer seqüela do seu trabalho. Certamente nenhum remorso.

E de Sarah Winchester que conseguiu driblar os fantasmas. Ela era a viúva de William Winchester, filho do fabricante do fuzil Winchester, "o rifle que conquistou o Oeste". Além de usado para eliminar coiotes, índios e outros entraves à ocupação do Oeste bravio, o Winchester - uma arma tão revolucionária, na sua época, quanto a máquina de matar de Kalashnikov - chegou ao mercado pouco antes de começar a Guerra da Secessão americana, que fez a fortuna da família.

Aconselhada por uma amiga, procurou uma médium que lhe disse que os espíritos de todos os mortos pelos rifles Winchester eram os culpados pela maldição. Eles tinham levado sua filhinha e seu marido como retribuição, e a única maneira de Sarah fugir dos espíritos seria comprar uma casa e aumentá-la continuamente. Construir novas peças, puxados, andares, anexos, terraços, alas - sem parar. No dia em que parasse a construção, segundo a médium, Sarah também morreria. Os espíritos chegariam a ela e também a levariam. Sarah comprou uma casa em San José, na Califórnia, e pôs-se a aumentá-la. As obras duraram, sem interrupção, até o dia da sua morte e a casa - que ainda existe, e hoje é uma atração turística em San José - chegou a ter sete andares, antes de ser parcialmente demolida por um terremoto, que Sarah atribuiu aos espíritos enraivecidos.

Agora eu lhes desafio: peguem os jornais de hoje e tentem encontrar em suas notícias coisa mais interessante ou prazeirosa que o escrito desses iluminados.

postado por: Thomaz Magalhães® 1:24 AM



Quinta-feira, Setembro 11, 2003


fábio gatti - 2000

henry victor - 2001

postado por: Thomaz Magalhães® 9:57 PM




aura ramirez - 2000

postado por: Thomaz Magalhães® 9:52 PM




mariliyn itrat - 1998

postado por: Thomaz Magalhães® 8:24 PM




juana maria bisio - 1994

postado por: Thomaz Magalhães® 8:22 PM



postado por: Thomaz Magalhães® 8:21 PM




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